Crônica: Indeciso

indeciso

Hoje eu vou de calça azul. Não. Hoje eu vou de calça preta. Eu adoro essa calça preta!” Eu costumava falar sozinho mesmo. Era comum. Me sentia menos sozinho. Saí do meu closet decidido a usar a calça preta. Entrei no banheiro, vesti a tal calça, mas me senti obeso. Voltei para o quarto, troquei pela azul e fui tomar meu café da manhã.

Hmm… Café ou chocolate quente? Mais uma indecisão. Café é muito amargo e de amargor já basta a vida. Retirei, então, o chocolate do armário, junto com um pão. Comeria o pão com queijo ou com geleia natural? Seguirei com a minha dieta ou deixarei a gordura entrar na minha vida? Acabei comendo o queijo e a geleia. Juntos.

Peguei meu carro e, como sempre, não deixei nenhuma música tocar no meu som. Ia passando todas até achar uma “menos pior”. Cheguei cedo no trabalho, arrumei minha mesa e fui ler minhas mensagens.

“Bom dia” – Mandou um amigo meu.

Que estranho. Ele nunca manda só isso. Será que ele está bravo comigo? Mas eu não fiz nada de errado! Comecei a ficar um pouco triste, mas respondi a mensagem dele como antes sempre fiz.

“Amigo, vamos sair hoje depois do trabalho?” – Ele respondeu de volta.

Já fiquei um pouco aliviado. Não tinha feito nada de errado! Já comecei a ficar feliz de novo.

“Nossa, Carlos! Como você deu uma engordada nos últimos dias! Acho que foram as festas de réveillon, né?” – Disse a carismática chefe de setor.

Olhei para o espelho e, realmente, me vi mais gordo. Meu rosto estava praticamente uma bola de futebol.

“Carlos! Como você está magro! Eu vou entrar na mesma academia que você! Parece que os exercícios funcionaram mesmo! Parabéns!” – Disse a moça que trabalhava comigo.

Olhei para o espelho e, aquela bola de futebol já estava com um sorriso que antes tinha desaparecido. Será que estou gordo? Será que estou magro? Nas fotos estou magro, mas o espelho diz outra coisa… Em quem devo confiar?

Quando vi, meu humor mudou mais de 20 vezes em um único dia (que ainda nem terminou). É tanta indecisão que eu mal vi o relógio passar. São quase seis da tarde e passei por tantas mudanças de temperamento e comportamento. Fiquei triste por pouca coisa, fiquei feliz por outras, fiquei com medo de ficar feio, mas também me arrumei para tentar ficar bonito.

Quando vi – em uma análise mais profunda – me deparei com os outros controlando minha própria vida e meus humores. Eu estava me deixando controlar pelo que os outros agiam. Eles tinham esse poder de me deixar feliz, triste, magro, gordo, bonito, feio, frio ou carinhoso. Nada disso eu conseguia controlar.

O dia está acabando, mas amanhã é um novo momento para recomeçar. Recomeçar a pensar do meu jeito. Quero tentar, a partir de agora, me controlar. Ter todo o domínio de mim e não deixar que os outros interfiram em meu modo de pensar, agir ou vestir. Ainda há tempo de me aceitar do jeito que eu sou. Certo?

Everybody’s got a dark side.
Do you love me?
Can you love mine?

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