Crônica: Entre reticências

reticencias

Acordei um pouco antes das 4 da manhã, abri as grandes cortinas de minha casa e fiquei olhando para o pouco movimento dos pássaros na montanha ao fundo. Há anos eu não dormia mais, com aquele sentimento de arrependimento que não saia de minha cabeça, e isso estava me matando. Os cabelos brancos tomavam a minha cabeça. Eu olhava para o espelho e não reconhecia mais o garoto feliz de 60 anos atrás.

Vendi minha empresa no ano passado por alguns milhões. Eu já não conseguia mais suportar um trabalho exaustivo demais. Não consegui cumprir a minha meta de trabalhar até o último dia de minha vida, mas eu tentei. Tentei mesmo.

Ah! Se não fosse a dor! Se não fosse a falta de alguém do meu lado! Ah! Se eu pudesse voltar ao tempo e valorizar as pequenas coisas…

Mas o tempo é uma armadilha, o tempo é cruel. Leva amores, carinho, leva beleza e também chances e oportunidades. Será que eu preciso dizer que dinheiro não é tudo? Aprendi tarde, admito. Com 20 anos eu não conseguia pensar que apenas um olhar me faria tão bem, ou um almoço em família me fazia me sentir mais vivo!

Eu briguei com tantas pessoas, passei anos sem ver as pequenas coisas, ainda sinto falta do carinho de minha vó, das conversas com meu pai, da tranquilidade da minha mãe … Comecei a trabalhar muito cedo. Eu era um workaholic convicto. Comecei a trabalhar em uma empresa automobilística aos 16 anos. Em pouco tempo, passei de estagiário para agente de vendas, depois fui para a coordenação, direção e logo o dono me chamou para ser sócio. E desde os meus 32 anos estive trabalhando de segunda a segunda, em uma carga horária desumana.

Minha mãe morreu, meu pai se mudou, meus avós se mudaram, eu não tive tempo de manter meus amigos do ensino médio e… Hmm… Não tive cabeça para pensar no amor também.

Tenho uma conta bancária bem cheia, de fome não morrerei. Mas por outro lado, não tenho força para viajar sozinho, não consigo sair para ir ao shopping ou a um restaurante, por exemplo. Passo 24 horas por dia do meu quarto para a sala. Da sala para a cozinha, onde encontrava dois dos meus 20 empregados, que mal olhavam para mim. Todo esse dinheiro não me faz comprar uma máquina do tempo, infelizmente. Também não é possível esquecer tudo que já fiz, tudo que passei, e não é possível ressuscitar os mortos, nem reconquistar pessoas.

Já são 9 da manhã e eu acabei de reparar que eu esqueci minha bengala em meu jardim de inverno. Meus empregados não chegaram, não tomei café da manhã ainda (e nem sei fazer isso) e minhas pernas doem mais a cada dia. Talvez eu durma mais cedo hoje, esperando a morte chegar. Talvez eu tente assistir a um filme, ou tente conversar um pouco mais com a minha faxineira… Quem sabe ainda eu tenha tempo de fazer, pelo menos, uma amizade antes de eu deixar a vida…

Se eu tivesse passado mais tempo com meus pais, se eu não tivesse brigado com a minha vó quando ela não queria sair porque sua perna doía demais, se eu não tivesse deixado de falar “eu te amo” pelo menos uma vez na minha vida… Mas não vou mais te atormentar. Chega de tantas lamentações, chega de tantas reticências. Eu só gostaria de pedir para você, sim, você que está lendo isto agora: não deixe o tempo passar e você ficar parado. Ele passa mais rápido do que você imagina. Faça planos, viaje, conheça novas pessoas, se apaixone sem medo de sofrer. Caia, mas arrisque. Arrisque a ponto de se reerguer sempre. Não sei o que aconteceria comigo se eu não tivesse feito tudo isso, mas eu daria todo o dinheiro do mundo para descobrir.

I should’ve told you what you meant to me. ‘Cause now I pay the price.

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